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Dinheiro para armas e operações: Quem financia o Talibã?

Especialistas dizem que é difícil estimar quanto exatamente o grupo arrecada com suas atividades, mas diferentes relatórios chegam a ordens de valores similares sobre a situação financeira do Talibã.

19/08/2021 20h51Atualizado há 1 mês
Por: Diário do País
Fonte: Gazeta do Povo
Combatente do Talibã monta guarda em ponto de controle na cidade de Kandahar, Afeganistão, 17 de agosto| Foto: EFE/STRINGER
Combatente do Talibã monta guarda em ponto de controle na cidade de Kandahar, Afeganistão, 17 de agosto| Foto: EFE/STRINGER

O Talibã tomou o controle de Cabul e está de volta ao poder no Afeganistão. O grupo fundamentalista islâmico foi derrubado do poder em 2001 mas, desde então, manteve suas operações e conquistou territórios rapidamente nos últimos meses, no contexto da retirada das tropas americanas do Afeganistão. O retorno do Talibã foi possível porque o movimento tem acesso a milhões de dólares; o grupo é financiado principalmente por atividades ilegais, mas também por doações.

Especialistas dizem que é difícil estimar quanto exatamente o grupo arrecada com suas atividades, mas diferentes relatórios chegam a ordens de valores similares sobre a situação financeira do Talibã.

Um documento confidencial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de 2020, obtido pelo Radio Free Europe/ Radio Liberty, mostra que o grupo, naquele momento, estava perto de alcançar independência financeira e militar.

No ano fiscal que encerrou em março de 2020, o Talibã faturou US$ 1,6 bilhão, de acordo com o documento da Otan. Em comparação, o governo afegão arrecadou US$ 5,5 bilhões no mesmo período.

De acordo com um relatório de junho de 2021 da Organização das Nações Unidas (ONU), com base em informações de inteligência de países-membros, a maior parte do dinheiro do Talibã vem de atividades ilegais, como tráfico de drogas, produção de ópio, extorsão e sequestros.

Apenas com o tráfico de drogas, o Talibã teria arrecadado US$ 460 milhões, de acordo com uma das agências de inteligência. O dinheiro que financia as atividades do grupo extremista também teria vindo da exploração ilegal de recursos naturais em áreas sob o seu controle no Afeganistão, incluindo até US$ 464 milhões em mineração, diz o relatório da ONU.

Além das fontes ilícitas de financiamento, o Talibã também recebe doações de uma "rede de fundações de caridade não governamentais", como descreve a ONU, e de apoiadores ricos. Muitas dessas doações vêm de entidades localizadas em países do Golfo Pérsico que apoiam a insurgência religiosa do movimento - e que estão na lista do governo americano de grupos que financiam o terrorismo. Essas doações chegam a até US$ 200 milhões por ano, segundo o Centro para Estudos do Afeganistão.

O analista de política econômica Hanif Sufizada, que estuda as finanças do Talibã como pesquisador do Centro de Estudos do Afeganistão (EUA), detalhou a origem do financiamento do grupo militante em artigo para o site The Conversation em dezembro de 2020.

Segundo o analista, o tráfico de drogas é a principal fonte de renda do Talibã. O Afeganistão é o maior produtor mundial de ópio, e boa parte dos lucros com a produção e tráfico de drogas cai nas mãos do Talibã, já que o grupo impõe uma taxa de 10% em cada etapa da cadeia de produção da droga, incluindo sobre fazendeiros que produzem a papoula, que é usada na fabricação do ópio.

Em seguida, a mineração de minério de ferro, mármore, cobre, ouro, zinco, outros metais e terras raras no Afeganistão é uma fonte lucrativa para o Talibã. Mineradores grandes e pequenos do país precisam pagar aos militantes para manter suas operações funcionando.

Nas áreas sob o seu controle, o Talibã também cobra impostos de pessoas e indústrias, o que na verdade é uma forma de extorsão sobre atividades como mineração, telecomunicação, comércio, agricultura e uso de estradas por motoristas, relata Sufizada. O especialista diz ainda que o Talibã é financiado pela importação e exportação de bens de consumo, que ajudam na lavagem do dinheiro; pela renda de imóveis no Afeganistão e no Paquistão; e com a doação de alguns governos.

Acredita-se que o Talibã receba fundos de países do Golfo e também dos governos de Rússia, Irã, Paquistão e Arábia Saudita.

Bernardo Mota, presidente do Instituto de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento ao Terrorismo (IPLD), lembra que existem resoluções do Conselho de Segurança da ONU que buscam impedir que o Talibã tenha acesso a qualquer tipo de financiamento.

"Nessa lógica, se você tem um controle, um monitoramento dos acessos que esses criminosos, ou terroristas, têm a operações financeiras, você vai ter êxito em impedir o crime", disse Mota à Gazeta do Povo, sobre movimentações financeiras em bancos ou outras instituições por grupos criminosos em geral.

Grupos terroristas muitas vezes usam o sistema financeiro como qualquer cidadão ou organização, e o monitoramento dessas atividades pode servir para bloquear o acesso a esses recursos de forma preventiva, diz o especialista. "Se o banco controla os acessos aos meios de pagamento, sabe-se que aquelas pessoas estão utilizando o sistema financeiro, e provavelmente você tomará medidas com as autoridades para bloquear esse dinheiro".

 

O Talibã no poder

Ao mesmo tempo em que o Talibã teve capacidade militar e financeira para tomar o Afeganistão, território a território, os levantamentos indicam que o grupo não tem recursos suficientes para governar o país sozinho.

O governo do Afeganistão gastou cerca de US$ 11 bilhões em 2018, segundo os dados mais recentes do Banco Mundial. Desse total, cerca de 80% vieram de auxílio internacional.

Alguns analistas argumentam que a dependência de ajuda estrangeira para governar o Afeganistão pode representar uma vantagem de negociação para os Estados Unidos, que poderiam ter alguma moeda de troca para garantias de alguma estabilidade. Zalmay Khalilzad, representante especial dos EUA para a reconciliação com o Afeganistão, disse no Fórum de Segurança Aspen, no início do mês, que o governo americano ainda tinha alguma vantagem porque o Talibã compreende que a ajuda internacional será crítica para o seu regime.

Bernardo Mota, do IPLD, acha improvável que os países ocidentais utilizem essa possível vantagem nesse momento. "Entendo que nesse primeiro momento, a posição de Estados Unidos e Europa vai ser de isolamento", avalia.

"A posição clara de Estados Unidos, Reino Unido, França, é de mobilizar o Conselho de Segurança para criar embargos políticos, diplomáticos e financeiros para governos ilegítimos que tomam o poder por meio da violência, de forma não democrática. Eu não consigo ver EUA e a Europa Ocidental estimulando, com qualquer tipo de financiamento, que o governo se instale".

Por outro lado, Mota ressalta que China e Rússia, que também são membros permanentes do Conselho de Segurança, têm uma visão diferente. "Esses países têm fronteiras ali perto e estão acerca da zona de controle deles", lembra. "Então, eles podem tentar buscar uma forma mais 'amistosa', ou diplomática, de tentar acenar para um possível diálogo".

"Nesse sentido posso imaginar, em termos de financiamento, russos e chineses tentando impor algumas regras mais amenas para que o governo, mesmo que tenha tido uma origem ilegítima, funcione de forma não radical, já que já está tomado", diz Mota.

Outros analistas também estão céticos quanto a essa possibilidade, porque não apostam que o grupo extremista barganhará ajuda para governar. "O Talibã não liga para ajuda internacional, legitimidade internacional. O seu objetivo primário é governar", disse Bill Roggio, da Fundação para Defesa das Democracias, para o Voice of America.

 

FMI bloqueia acesso do Talibã a recursos

O Fundo Monetário Internacional (FM) bloqueou, nesta quarta-feira (18), o acesso do Talibã a cerca de US$ 400 milhões das reservas de emergência da organização.

“Há uma falta de clareza dentro da comunidade internacional em relação ao reconhecimento de um governo no Afeganistão. Como resultado, o país não é elegível para DES (Direito Especial de Saque) ou outros recursos do FMI", declarou o Fundo em comunicado.

O FMI aprovou, no início de agosto, uma nova alocação de DES (a moeda doméstica do FMI) equivalente a US$ 650 bilhões em auxílio a países para o enfrentamento da crise causada pela pandemia. Cerca de US$ 275 bilhões desta alocação serão destinados a países em desenvolvimento e nações de baixa renda, como é o caso do Afeganistão, um dos países mais pobres do mundo.

O FMI deveria dar acesso a essa verba ao Afeganistão a partir da próxima semana, mas bloqueou a alocação após pressão da comunidade internacional, especialmente dos EUA, após a tomada de poder pelo Talibã.

 

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