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Papa Francisco em Assis: os pobres e nossa ilusão de autossuficiência

Étienne Villemain, presidente da associação Fratello, fala sobre a importância do Dia Mundial dos Pobres.

11/11/2021 22h22Atualizado há 3 semanas
Por: Diário do País
Fonte: Diário do País, com Aleteia

Na véspera da visita do Papa Francisco a Assis, onde ele se encontrará com 500 pessoas pobres, Étienne Villemain, presidente da associação Fratello, fala sobre a importância do Dia Mundial dos Pobres.

O que o senhor espera deste encontro entre o Papa Francisco e os pobres em Assis?

Nos últimos anos, o contexto na Igreja Católica mudou muito, especialmente no meu país, a França. Algumas semanas atrás, descobrimos com horror o conteúdo da investigação da Comissão Independente sobre Abuso Sexual na Igreja.

Neste momento doloroso em que estamos, junto às vítimas, aos pés da Cruz, os pobres são a nossa porta para a Salvação. Eles são a esperança da nossa Igreja e do nosso Papa. Hoje, enquanto muitas coisas desmoronam, e a Igreja se torna, em certo sentido, silenciada, acreditamos que há uma pessoa a quem se apegar: Cristo. No entanto, Jesus nos diz que podemos encontrá-Lo nos pobres.

Este ano, estou muito muito feliz em podermos ir a Assis com muitas pessoas vulneráveis. Não estarão lá apenas moradores de rua, mas também uma ampla variedade de pessoas em situação de pobreza e dificuldades, como crianças com deficiências graves. É uma grande bênção nos unirmos em um momento assim.

 

O que inspira a cidade de Assis, escolhida para sediar o encontro?

É muito significativo ver que o Papa dos pobres vai à cidade do Pobrezinho, São Francisco, para se encontrar com pessoas em situação de pobreza. Fui junto a Alix Montagne [cofundadora da associação Fratello] ao túmulo de São Francisco, há algum tempo. É um lugar emocionante. É algo muito forte vivenciar a experiência de São Francisco de Assis, que ao mesmo tempo que mantinha uma espiritualidade profunda, estava perto dos mais frágeis e dos pobres, até mesmo beijando leprosos.

Muitas vezes, observamos uma separação entre aqueles que dão preferência a uma vida de espiritualidade e aqueles que se concentram no social, com a infeliz tendência de se apontar oposição entre as duas dimensões. São Francisco coloca nossa mente no Céu e nossos pés no chão. Ele nos ensina a amar Jesus e os pobres.

 

O Papa Francisco foi eleito em 2013 para fazer a Igreja ir às periferias da existência. Ainda há um caminho a percorrer?

Sim, e o caminho que ainda precisa ser percorrido é, na verdade, aquele entre a mente e o coração de todos nós. O Papa dá um impulso, uma direção. Mas o mais importante é que nós façamos nossa conversão. Muitas vezes, não acolhemos os pobres porque temos medo de fazê-lo. Porque é como se, inconscientemente, disséssemos para nós mesmos: “se eu tocar em um pobre, me tornarei pobre”. Na verdade, não aceitamos nossas limitações.

Não nos enganemos: o Dia Mundial dos Pobres é para todos. Enquanto pensarmos que é para os outros, que não somos verdadeiramente pobres, persistiremos no erro de acreditar que somos autossuficientes em nós mesmos. No entanto, os pobres são aqueles que dependem, dependem de Deus, dependem de seus irmãos e irmãs. E se eu depender dos outros e de Deus, então Ele pode vir e preencher meu coração.

 

Não há o risco do Dia Mundial dos Pobres acabar não tendo uma influência concreta depois?

Para evitar isso, precisamos entender que os pobres não devem estar à porta de nossas igrejas como muitas vezes os vemos, mas devem estar no coração da igreja. Não podemos ser cristãos “acomodados”, satisfeitos com as ações caritativas do dia anterior. Todos os dias, devemos ser capazes de acolher os pobres junto de nós. E só conseguiremos isso quando formos capazes de aceitar nossa própria pobreza todos os dias. Caso contrário, viveremos encantados por uma imagem de nós mesmos que não existe; viveremos acomodados.

 

Quais soluções o senhor vê?

Acho que devemos voltar a estas três palavras: adoração, compaixão e evangelização. Adorando o Senhor, podemos pedir-Lhe que venha visitar nossas fragilidades e nos dê um coração de compaixão. Com esse coração, nos tornaremos missionários por natureza motivados a anunciar o bom Deus, dando aos pobres ao nosso redor o que eles precisam, começando pelo pão.

Portanto, a chave está na conversão pessoal. E não somos nós que nos convertemos. Nós nos deixamos converter, todos os dias. Não sabemos como fazer isso, mas podemos chamar o Espírito Santo para vir e fazer esse difícil trabalho em nós.

 

Entrevista realizada por Hugues Lefèvre

 

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